Depois da profusão de lançamentos literários no palco da livraria Siciliano do Midway, a jerimunlândia assiste amanhã a noite de autógrafos do maior escritor contemporâneo deste Rio Grande. Pelo menos o único de alcance nacional. Nei Leandro de Castro é escritor no melhor sentido da palavra. Ou no mais raro para os potiguares. Apesar de autor de dois livros antológicos de poesia - Era uma vez Eros e Diário íntimo da palavra -, o autor dos romances ficcionistas As pelejas de Ojuara e Dunas vermelhas lança agora mais uma obra cujos cenários sãos os chãos potiguares, inseridos numa trama envolvente cujo fio condutor está amparado nas memórias de uma mulher psicótica e um natalense saudoso de sua terra após ser torturado pela polícia política do Rio de Janeiro.


Carlos Santos/DN/D.A Press
Fortaleza dos vencidos resgata personagens históricos do Estado vencidos pelo tempo e acusados pela história. A Fortaleza dos Reis Magos é palco do desfecho do julgamento de velhos traidores da história potiguar, como o judeu Jacob Rabim, partícipe do massacre de Cunhau. Apesar de mais um livro de reminiscências ou dos 69 anos do autor caicoense, e à quista de seu último livro Dunas vermelhas (2004), a escrita de Neil de Castro traz elementos modernos à literatura. São tramas envolventes. A mescla da pesquisa histórica e de personagens fictícios e verdadeiros convida o leitor ao mergulho numa época já distante e nas profundezas da ilusão e da história documental. E mais uma vez retrata a alma da cidade escondida nas entrelinhas do enredo: uma costura predominantemente romanesca em detrimento à pesquisa, favorável à boa leitura.
Na ficção há referenciais autobiográficos. Neste livro eles estão mais presentes em quais momentos?
Metade do livro são partes evocativas da minha infância e adolescência, do Cinema Rex, da praça Pio X# Mas são apenas passagens.
Tem sido recorrente às obras ficcionistas produzidas por autores potiguares trazerem à tona reminiscências de outrora. Falta à nova geração escrever sobre sua época?
Nossa tradição é de poucos autores ficcionistas e maior produção poética. Nossa ficção está meio parada nos últimos anos. Surgiu um livro muito bom, Parnamirim Field: último pouso, de um autor que não é tão jovem assim, o Lenílson Antunes. Tem uma trama muito boa. Mas são poucos. Ainda espero um grande ficcionista desta nova geração.
Falta talento ou é preguiça?
Se vê muito livro de crônicas e contos de escritores aptos a escreverem romances...
Ficção é gênero difícil, complicado. Escrevi minha primeira ficção aos 43 anos. Juventude e ficção caminho meio separados. É um gênero que requer paciência; se debruçar sobre pesquisas e personagens... O jovem, ainda mais o de hoje, é impaciente. Claro, existem bons jovens ficcionistas. Mas é exceção. Jorge Amado escreveu muito cedo, embora seus melhores romances sejam produzidos já na maturidade. Agora você imagine como era antigamente: escrever 300 laudas na máquina datilográfica. Era um trabalho tenebroso. O computador ajuda muito. A gente até se diverte ao corrigir os equívocos.
Poesia é mais fácil?
Ou é fácil ou impossível. Essa foi a frase que Picasso respondeu quando perguntaram se era fácil pintar. Se o escritor tem vocação, fica fácil. Se não, passa anos e anos e não produz nada que preste. Eu tenho mais facilidade em escrever poesia.
O título do livro remonta tão somente a Natal de ontem ou ainda cultivamos uma aura de "vencidos"?
O livro traz muita referência à Fortaleza dos Reis Magos. São casos e encontros amorosos, paixões imensas que acontecem lá. O último capítulo é todo vivido dentro da Fortaleza. Os vencidos são personagens históricos que ressurgem na Fortaleza parajulgar pessoas acusadas de traição. É meio surrealista. Um deles é o judeu Jacob Rabim. Ele ajudou no massacre de Cunhau; personagem importante na trama. Houve um fato curioso: numa reunião de potiguares no Rio de Janeiro eu disse que pesquisava a vida desse judeu e mais de uma pessoa se insurgiu contra a ideia. Criticaram o fato de eu aproveitar a história de um traidor no livro. Pura babaquice. Ora, se a riqueza do personagem está aí.
Como se dá o processo de pesquisa? Como envolver a pesquina na trama?
Pesquiso devagar. Não tenho vocação pra isso. Eu já tinha a ideia do livro mais ou menos elaborada e joguei aos poucos o fruto das pesquisas. Não gosto de aborrecer muito o leitor com pesquisas históricas. Levei um ano para acabar. Depois guardei a gaveta. Às vezes tirava, revisava, a espera de um editor. É difícil um editor de fora que compre a ideia do livro. Acredito ter conseguido a edição pela Arx Saraiva pela vendagem de As pelejas de Ojuara. Claro, eles não publicariam Fortaleza dos vencidos pelos olhos bonitos do autor. É um livro comercial e eles apostam numa boa vendagem.
Não seria mais fácil a edição por aqui?
Sim. E sem ônus nenhum pra mim. Porque pelo Sebo Vermelho, por exemplo, o autor divide as despesas com o editor. O diário das moscas foi relançado e é o livro mais vendido pela editora Jovens Escribas. Se tudo der certo com a Fortaleza dos vencidos pretendo relançar por alguma editora paulista o Dunas vermelhas. Foi um livro pouquíssimo lido, de poucas tiragens. Quando a AS Livros ia fechar fui lá pra comprar o estoque restante e não tinha mais nenhum exemplar.
Há novas ideias no prelo da mente para um novo livro?
Estou tentando colocar e organizar novos personagens na cabeça que me atormentam, embora seja uma relação agradável. Mas é preciso paciência na convivência com os personagens. Alguns conseguem tirar o autor da cama.
Então há uma ideia pronta? Qual seria?
Ainda estou elaborando. O processo é lento. Não há nada concreto. Quando comecei Ojuara só tinha uma informação na cabeça: um homem manipulado pela mulher que dava a volta por cima e mudava de nome. Daí até a conclusão do livro foi tudo muito lento.
Serviço
Lançamento do livro Fortaleza dos vencidos
Quando: Amanhã, quarta-feira, às 18h
Onde: Livraria Siciliano do Midway
Preço: R$ 30