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14.12.2007

O RN e o desafio da nova TV Digital

Na época do surgimento da televisão brasileira, nos anos 50, as crianças reunidas na sala esperavam impacientes para ver o logotipo do Kurumin da TV Tupi surgir diante de seus olhos numa pequena tela oval em preto e branco. Isso acontecia no meio da tarde, depois que as válvulas aqueciam, proporcionando o encantamento de uma minoria que tinha acesso à nova tecnologia.

Um tempo distante para o mossoroense Aquiles Burlamaqui, hoje com 27 anos, que não era nem nascido quando as primeiras imagens em cores começaram a ser geradas durante a conquista do tricampeonato brasileiro na Copa do Mundo, em 1970. Mas isso já não tem qualquer importância, pois o tempo do entretenimento passivo chamado televisão está com os dias contados.

Entre centenas de jovens brasileiros, metidos nos cursos de engenharia eletrônica e da computação que estudam já há alguns anos a nova TV Digital, Aquiles está entre os brasileiros considerados inovadores. Em 2003, quando concluía a graduação, sob a orientação do professor Guido Lêmos, um dos mais renomados especialistas em TV Digital no Brasil, hoje doscente da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), o mossoroense desenvolveu a “torcida virtual”.

Num futuro bem próximo, quem estiver assistindo a uma partida de futebol, poderá enviar seu grito de alegria ou sua vaia para se juntar a outras milhões de vozes que serão reproduzidas ao mesmo tempo, consumando o conceito da “interatividade total”, quando todas as mídias serão interligadas e um sanduíche saboreado pela atriz durante a novela poderá ser comprado pelo espectador por um simples movimento dos dedos no controle da TV.

Desde que o Governo deu o  início nas pesquisas para desenvolvimento de uma tecnologia para a TV Digital no Brasil (TVDI), jovens como Aquiles, hoje professor da UERN, concluindo o Doutorado na UFRN sob a orientação do professor Luiz Marcos Garcia Gonçalves, está entre as dezenas de alunos da pós-graduação, que até 2005 receberam financiamento do Governo Federal para desenvolver, em conjunto, pesquisas para a nova tecnologia de TVDI sob o prisma das três principais tecnologias existentes no planeta: a européia, a americana e a japonesa.

A um dos três grupos da UFRN, comandado pelo professor Luiz Marcos, foram destinados cerca de 110 mil reais para o desenvolvimento  do sistema operacional e interfaces gráficas, incluindo drivers do coversor a ser utilizados na nova tecnologia, inicialmente só disponibilizada na cidade de São Paulo.

Em 2005, porém, o Governo Federal retirou o financiamento das pesquisas de longo prazo, mais abrangentes e complexas, forçando uma maturação rápida das pesquisas para a adoção do modelo da TVDI brasileira.

No Japão, há mais de uma década, a televisão digital não é novidade, como não é novidade para o japonês assistir à televisão dentro de um carro em movimento ou passando dentro de um túnel sem qualquer oscilação ou interferência na imagem recebida. Mas, no Brasil, a revolução será total, como explica o professor Luiz Marcos. “Vai mudar desde a maneira como se maquia e compõe cenários de Tv, até a logística do varejo em geral que deverá estar preparada a acolher pedidos de venda de um determinado produto veiculado num programa de auditório ou num mershandising de novela”. E lembra: “Com a TV Digital o espectador verá tudo com muito mais nitidez e a interatividade crescente marcará a grande revolução desse começo de milênio”.

Sinal deve chegar a Natal em 2009

Por enquanto, há tudo para se fazer até o sinal digital chegar ao Rio Grande do Norte, começando por Natal, o que deve acontecer a partir de 2009. Do grupo da UFRN, liderado pela vizinha Universidade Federal da Paraíba, está saindo o Middleware - que é interface entre o sistema operacional e as aplicações interativas - em fase final de desenvolvimento pelos grupos do Nordeste.

O primeiro projeto de TVDI foi gerenciado pelo CPQD -  Fundação Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações, localizado em Campinas - contando com a participação de mais de 70 universidades e instituições de pesquisa, dentre as quais a UFRN e a UFPB.

A UFRN tem o grupo “Natal Net”, criado pelo professor Guido Lemos quando ainda morava em Natal, antes de se transferir para a Paraíba onde coordena o “Lavid” - Laboratório de Vídeo Digital. Esses consórcios operaram separadamente até dezembro de 2005 para formar um todo do processo dinâmico da tecnologia da TVDI no Brasil. Desde soluções mais complexas até as operacionais, tudo pode se transformar em patente em poder das universidades brasileiras. O grupo do professor Luiz Marcos, liderado pela USP, por exemplo, criou e desenvolveu um modelo para o hardware do conversor (Set top Box, que na tradução literal do inglês é a “caixa de colocar em cima”). Trata-se de um conversor do sinal digital para o sistema brasileiro hoje em uso, o PAL M. Os modelos, já disponíveis no mercado, variam entre R$ 600,00 a R$ 1.200,00. Mas os pesquisadores da UFRN alertam para que o consumidor não se precipite em adquirir agora qualquer um dos modelos, pois a tecnologia está em constante mudança, a exemplo do que acontece na informática.

O consórcio formado pela UFRN, UFPB, CEFET/PB e UERN  visa justamente fomentar essa nova linha de pesquisa nas instituições envolvidas, através da formação de mestres e doutores em temas relacionados a TVDI. Esse novo sistema permitirá quadruplicar a quantidade de informações transmitidas. Com isso, as emissoras ganharão em qualidade e quantidade de conteúdo transmitido, podendo, inclusive, trabalhar em alta e baixa definição ao mesmo tempo, servindo do aparelho mais sofisticado do mercado a um celular, que não comportaria imagens em altíssima definição.

Mas lembra o professor Luiz Marcos Garcia, da UFRN, que nessa briga de cachorro grande não só o usuário, mas todos terão que se modernizar, da logística às redes de televisão, que serão obrigadas a fazer desembolsos generosos para se adaptar à nova tecnologia digital. Ele calcula que uma emissora afiliada de rede terá que investir de R$ 15 milhões e R$ 30 milhões (daí para cima) em novos equipamentos e cenários para levar a seu público as novas possibilidades da TV Digital.

Desinformação ainda é o maior problema

As transmissões da TV digital começaram na noite do último domingo -  2 de dezembro - na capital paulista em meio a falta de informações e desinteresse por parte dos usuários. Dados do Instituto Qualibest, por exemplo, mostram que 89% de uma amostra formada por 1.684 internautas sabem pouco ou nada sobre a tecnologia. Uma pesquisa realizada pelo IDG Now! constatou que 95% dos leitores não estão dispostos a pagar 700 reais (preço médio do conversor) para ter acesso ao sinal digital em suas televisões.

Uma das barreiras que vem sendo vista como impedimento para que a TV digital se torne mais atraente é o alto preço do conversor. O modelo mais barato atualmente à venda, custa 500 reais (com quase nenhum recurso para o telespectador) e o mais caro, 1.199 reais. Enquanto isso, quem está fora de São Paulo ainda terá de esperar. “A partir de janeiro, estamos também com a obrigatoriedade de entrar com o sinal da TV digital em Brasília, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Em julho do ano que vem, chegamos às demais capitais. A partir de dezembro de 2008, chegamos nas cidades-pólo no Brasil inteiro e em 2009, evidentemente, no resto do Brasil”, afirmou o ministro das Comunicações, Hélio Costa, à Agência Brasil.

Fonte: Tribuna do Norte

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