Revitalizar é sinônimo de habitação? Para alguns artistas esse é o segredo para a recuperação do bairro, para outros não. Mas o fato é que todos torcem pelo bairro e querem transformá-lo num pólo de cultura e lazer que ofereça aos natalenses e turistas o melhor da produção artística potiguar.
O ator e diretor artístico da Casa da Ribeira, Henrique Fontes, convive no bairro desde 1999, quando começou a ser recuperado o prédio que hoje abriga a referida casa. ‘‘Para mim reabilitar é dar função. Não adianta reabilitar o perímetro urbano se o bairro não tem função, se no local não há lojas de consumo imediato, escolas, moradias’’, critica e pontua, ‘‘só assim será mudada a imagem de que o bairro é esquisito, abandonado, violento. A Ribeira tem que ser transformada em um bairro residencial e que aqueles que cheguem ao bairro sejam sensíveis à preocupação com a preservação do patrimônio histórico’’.
Já o músico e produtor cultural Anderson Foca, que há 15 anos faz show no bairro e há 4 abriu o espaço para shows DoSol Rock Bar, acredita que a Ribeira não precisa ser habitada para ser revitalizada, ‘‘lá é o lugar mais adequado para fazer shows da cidade. Se começar a ter moradia, os moradores irão reclamar e exigir seus direitos e vai inviabilizar o lugar para shows. Os centros históricos de São Luiz e de Salvador são revitalizados e não são habitados’’. Ele cita que existem outros problemas que são urgentes e precisam de cuidado como a iluminação e policiamento, ‘‘apesar de que a violência lá está longe da média da cidade. O local precisa de cuidados para que a cidade toda desenvolva uma relação de afetividade com o bairro e mude a visão equivocada que muitos têm de lá’’.
Tesouras e arte
Há 5 anos a cabeleireira Nalva Melo estava procurando um espaço para montar o seu salão e achou o mais adequado na Ribeira. No começo era apenas um salão convencional, mas depois que ela fez uma viagem para Áustria e Viena se encantou com os cafés que viu por lá, ‘‘isso foi bem na época da revitalização, quando os amigos vinham para cá para tomar um café e ir para o Largo da Rua Chile, foi aí que lancei o café’’. Hoje ela desenvolve sua atividade de cabeleireira e também disponibiliza seu espaço para música, teatro, cinema e qualquer outra forma de arte. Com a experiência de tantos anos ela lembra que a Ribeira precisa de mais segurança, apesar de nunca ter tido qualquer problema, e mais depósitos de lixo. ‘‘Fiz muita gente que tinha preconceito com a Ribeira descer ate aqui, pelo inusitado de ver um salão que faz cultura. No começo me senti muito sozinha, cheguei a pensar em fechar, mas sou muito criativa, digo que renasço das cinzas. Fico feliz por ter trazido muita gente, sou satisfeita por ter contribuído com esse bairro e hoje a Ribeira é independente de guerra’’.
O presidente da Fundação de Cultura Capitania das Artes, Dácio Galvão, afirma que potencialidade cultural e patrimônio a cidade tem, mas para ele o que falta é amadurecimento dos atores políticos e sociais para aprofundar e implementar essa discussão. ‘‘Reconheço que existe muito a ser feito na área do patrimônio histórico, reconheço que nossa administração não fez muito por essa questão por ter faltado recursos para isso, pois essa área demanda muito investimento’’. Ele acredita que a revitalização do centro histórico requer a ampliação da parceria público/privada. ‘‘Nós temos muitos talentos aqui, mas só isso não é suficiente. Tem que haver um amadurecimento da sociedade, do trade turístico e da parceira público/privada, mas isso também é um processo muito lento’’.